Egressos Press Podcast reúne autores e jornalistas em conversas sobre livros, viagem, filosofia, comunicação e democracia. Um espaço para pensar com calma em um mundo acelerado — e para ouvir o que geralmente fica fora da narrativa dominante. Os episódios estão disponíveis em áudio e acompanham os lançamentos e projetos editoriais da Egressos Press, cujos livros podem ser encontrados na Amazon em formato Kindle, paperback e capa dura.
EPISÓDIO 1
Hoje conversamos com Leonardo Freund, autor e pensador independente, cuja escrita cruza civilizações, linguagens e campos do conhecimento. Seus livros exploram viagem, filosofia, comunicação e política, sempre a partir de uma perspectiva crítica e pessoal.
🎙️ [Chris]
Leonardo, em um mundo saturado de informação, redes sociais e conteúdos descartáveis… por que ainda escrever livros?
🎙️ [Leonardo Freund]
De modo geral, existe hoje uma abundância enorme de informação, em diferentes formatos e estilos. Mas isso não significa, necessariamente, compreensão — e muito menos qualidade da informação.
A gente vive cercado de dados, opiniões instantâneas e narrativas prontas, com cada vez menos espaço para uma reflexão mais profunda e questionadora. Perguntar, debater e buscar a verdade exige método, tempo e, sobretudo, espaços reais de diálogo — coisas cada vez mais raras.
O livro continua sendo um dos poucos lugares onde o pensamento pode desacelerar.
Ele não tenta competir com a velocidade do mundo — ele a questiona.
Portanto, escrever um livro hoje é um gesto de resistência silenciosa:
uma recusa à superficialidade, ao esquecimento rápido e à lógica do consumo imediato.
É apostar que ainda vale a pena pensar com calma, mesmo quando tudo ao redor pede pressa.
🎙️ [Chris]
As novas tecnologias da informação e da comunicação não trouxeram, justamente, esse espaço para o diálogo de forma mais eficiente?
🎙️ [Leonardo Freund]
Elas trouxeram possibilidades técnicas de comunicação, sem dúvida.
Mas possibilidade técnica não é a mesma coisa que diálogo. As TICs ampliaram o alcance da voz, mas nem sempre aprofundaram a escuta. Criaram canais, mas não garantiram método, tempo nem compromisso com a verdade.
O diálogo exige mais do que conexão: exige disposição para questionar, para sustentar argumentos e para conviver com o dissenso. As plataformas digitais, em geral, são desenhadas para velocidade, engajamento e reação — não para reflexão.
Nesse sentido, o livro continua sendo um espaço privilegiado de diálogo, ainda que silencioso. Ele não responde imediatamente, não disputa atenção por segundos.
Mas oferece algo raro hoje: a possibilidade de um encontro prolongado entre ideias, autor e leitor.
🎙️ [Chris]
É possível afirmar que a leitura permite, de fato, um olhar para dentro do leitor, criando um distanciamento necessário? Inclusive para uma autoanálise mais coerente entre pensamento e comportamento?
🎙️ [Leonardo Freund]
Sim, é possível afirmar — com uma ressalva importante. A leitura não transforma automaticamente; ela cria a condição para a transformação. Ao ler, o indivíduo se afasta momentaneamente do fluxo imediato da vida cotidiana. Esse distanciamento não é fuga, é suspensão.
É nesse intervalo que o leitor passa a observar a si mesmo: seus valores, suas contradições, seus hábitos. O livro funciona como um espelho indireto.
Ele não diz quem você é, mas cria perguntas às quais você não consegue escapar com facilidade.
Essa pausa reflexiva permite alinhar — ou tensionar — pensamento e comportamento.
Nem sempre para produzir conforto, mas muitas vezes para produzir consciência.
E consciência, mesmo quando incomoda, é o primeiro passo para qualquer mudança real.
🎙️ [Chris]
O slogan da Egressos Press é “Onde as histórias se tornam legado”. Nesse sentido, qual é o verdadeiro legado de um livro: um talismã da sorte para quem o leu ou um instrumento de sabedoria?
🎙️ [Leonardo Freund]
Talvez o livro nunca tenha sido apenas uma coisa ou outra. Mas, se precisarmos escolher, eu diria que ele se aproxima mais de um instrumento de sabedoria — ainda que funcione, às vezes, como um talismã.
O talismã protege, conforta, acompanha.
A sabedoria, por outro lado, transforma.
Ela não promete segurança, mas oferece discernimento.
Um livro deixa legado quando continua operando dentro do leitor depois da última página.
Quando ele altera o modo de perceber o mundo, de tomar decisões, de se relacionar com os outros e consigo mesmo.
Nesse sentido, o verdadeiro legado não está no objeto físico nem na lembrança afetiva, mas na mudança silenciosa que ele provoca.
Se um livro consegue fazer isso, ele deixa de ser apenas uma história — e se torna, de fato, legado.
🎙️ [Chris]
Leonardo, obrigada pela conversa.
Ficam aqui não apenas respostas, mas perguntas que seguem ecoando — exatamente como bons livros costumam fazer.
🎼 VINHETA DE ENCERRAMENTO
Você ouviu o Egressos Press Podcast —
onde as histórias não terminam na última página,
e o pensamento encontra tempo para se tornar legado.
Os livros da Egressos Press estão disponíveis na Amazon, em formato Kindle, impresso e capa dura.
Saiba mais em egressos.org.
